Escuna - Uma arte milenar

Ao cruzar a baía de Camamu em direção às praias de Barra Grande, o turista desavisado; vê surgir de repente uma floresta de mastros pontiagudos e pode achar estranha a idéia de uma marina em meio a esse desconcertante labirinto de rios e manguezais. Mais surpreso fica quando, ao aproximar-se, é recebido por uma sinfonia de machadadas, marteladas e serras estridentes. É que ali, no pequeno povoado de Cajaíba, a 150 quilômetros ao sul de Salvador, onde se localiza a maior concentração de estaleiros para a construção artesanal de embarcações no Brasil.

As escunas são  a glória dos mares de salvador na Bahia.

 

Uma extensa fila de cascos, do simples esqueleto ao barco pronto, ocupa cada centímetro da praia lamacenta. Numa embarcação grande, de 20 metros de comprimento, Francisco Lemos controla o avanço dos trabalhadores enquanto o calafate veda a cabine com martelo e formão, introduzindo tiras de estopa de algodão pelas frestas do tabuado, pintores já estão tratando partes do convés com uma tinta toda envenenada para garantir a conservação. Mais 30 dias, ele calcula, e está entregando a escuna ao novo dono, um médico paulistano. Francisco Lemos, um dos 15 mestres carpinteiros instalados nesses estaleiros a céu: aberto, que ganham a vida construindo barcos, principalmente escunas. ”As escunas garantiram a nossa sobrevivência”, afirma José Lito, o Mais velho do lugar. Antigamente aqui eram construídos barcos de pesca e de carga, os saveiros que escoavam a produção de tabaco e açúcar do Recôncavo e o azeite-de-dendê do litoral.Mas as novas estradas fizeram cair a demanda por esses tipos de embarcações.

Uma antiga tradição: curva-se as pranchas de madeiras aquecendo-as no fogo.

Foi o mestre Zé Leito quem uns 30 anos atrás, armou a primeira escuna em Cajaíba. Enquanto fala, não para de aplainar um cerne vermelho de conduru: “Não existe madeira melhor para mastro, só perde para aço inox”. São dois mastros altos com grandes velas trapezoidais a característica principal de uma escuna. O nome é uma adaptação do Inglês schoonner, antigo tipo de navio à vela. Hoje em dia, equipadas também com motores potentes, elas marcam presença nos centros turísticos do litoral brasileiro como uma forma romântica de um barco de lazer e passeio. Ninguém ensinou ao mestre Zé leito como uma escuna deve ser feita.  Ele diz que tirou as idéias da sua experiência e olhando os outros barcos. “Uma escuna não pode ter muito porão como os barcos de carga e, se levanta demais a borda, perde a estabilidade”.

 O acabamento é um trabalho bastante árduo: calafates trabalhando no casto

 

 Acabamento do cabine da cabine.

Saber as medidas e proporções corretas, definir qual tipo de madeira para cada peça, conhecer as técnicas construtivas - nenhum dos mestres de Cajaíba; aprendeu isso na escola. Foi olhando e fazendo, como Ze Lito, desde de criança. Zé Lito nunca usou uma planta para fazer um barco. 0 único recurso mais próximo a isso em Cajaíba é a “fôrma de braço”, que lembra um bastão de hóquei e com a qual se medem as cavernas do casco – o resto “é tudo do olhômetro”.Quando, há poucos anos, a eletricidade chegou em Cajaíba, facilitou bastante alguns trabalhos dos carpinteiros.Outros são os mesmos de há séculos.Já são quase cinco horas, e o ajudante Mário, por exemplo, está suando para “assar o cintado”, ou dobrar uma das enormes tábuas superiores do casco sobre as brasas de uma fogueira.” Antônio lemos que passa a cada instante para observar o trabalho do rapaz, é o dono do maior estaleiro em Cajaíba.Atualmente a construção de dez escunas diferentes está sob o seu comando, a metade já foi vendida. Ele começou, jovem ainda, como apanhandor de madeira nas florestas da região. Para as suas primeiras escunas ele mesmo escolheu e cortou as árvores, jataipeva e sucupira, de madeira resistente e dura, ’que não abre no sol." Mas essas árvores, prediletas da construção naval, está sumindo junto com os restos da Mata Atlântica do Nordeste brasileiro.

A técnica de construção é passada de pai para filho, mantendo-se a tradição da região.

Quando, em 1993, um decreto federal proibiu o corte de todas as arvores nativas da Mata Atlântica, a comunidade de Cajaíba levou um choque. A falta de madeira está acabando com a construção naval em Valença,  cidade outrora famosa por essa atividade, que agora está em plena decadência: cascos abandonados na água, maquinário tomado pela mata, estaleiros com placas de ”vende-se”. Aqui já se estenderam 30 quilhas ao mesmo tempo”. lembra Jenebaldo Ceará, o mestre Baldino. Hoje ele trabalha na única escuna em construção no local.  O mestre Baldino é um perito em acabamento: instalações elétricas e hidráulicas, carpintaria do interior – do chuveiro quente ao até a geladeira e da estante de louças até os armários embutidos. ”Os conceitos deles são bem modestos”, alega o empresário paulista Rimandas Krisciunas.

Artesão trabalhando na confecção do cavername de uma escuna.

 

Apaixonado pelas ”coisas do mar”, ele divide o seu tempo entre suas lojas em São Paulo e os estaleiros do país. Acompanhando as obras, ele e o elo entre o mestre e o futuro dono da embarcação. As suas últimas empreitadas o levaram além do Nordeste para a recortada costa do Maranhão. Lá, com a Amazônia próxima ainda se encontram as madeiras nobres com muita facilidade.  As raízes francesas, também, deram ao Maranhão a fama de construir as mais belas embarcações do Brasil. Na pequena cidade de Cururupu, as caprichas escunas do mestre Belo já consolidaram essa reputação no sul. Seus barcos hoje cruzam as verdes águas de Angra e Paraty e já desfilaram numa novela global. 

O trabalho é bastante laborioso. Quase todo o trabalho é feito a mão.

Com Emidio, um aluno aluno do mestre Belo, Rimanadas acaba de terminar a ”Sir Francis Drake I “, uma imponente escuna de 400 metros quadrados de velas.“A atividade da construção naval, que por um lado envolve tanto romantismo e folclore, para os operários muitas vezes se mostra dura e desvalorizada. Eles trabalham anonimamente sem qualquer apoio, assistência ou incentivo,” diz Philipe Andrés, da Secretaria de Cultura do Maranhão, que realizou um projeto inédito no país.  Durante anos uma equipe percorreu o Estado, cadastrando os estaleiros artesanais e os mestres construtores, registrando métodos, materiais e tipologia.

Artesão trabalhando no acabamento interno de uma cabine.

Frutos dessa pesquisa são o belo livro Embarcações do Maranhão (Audichromo Editora, SP) e a próxima inauguração de um estaleiro-escola em São Luis. Neste centro de treinamento os mestres serão convidados e remunerados para transmitir em cursos de carpintaria  naval seus conhecimentos para aprendizes e interessados. Ou, nas palavras do mestre Pedro Alcântara, para ensinar como, “pra ficar direito n’água, um barco tem que ser feito assim – todo torto”.