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Por sua vez, os venezianos já tinham se preocupado em libertar o Adriático dos piratas dálmatas, que anteriormente constituíam uma ameaça para o comércio e a navegação, por meio de uma série de ações que culminaram no ano 1000 com a ocupação, por ordem do doge Pietro Orseolo II, das ilhas dálmatas de Cruzola e Lagosta.
As Cruzadas mudaram radicalmente a situação, pois exércitos inteiros tinham de ser transportados a bordo. Durante a Quarta Cruzada, Veneza ocupou se do transporte de 4.500 cavaleiros, cada um deles com o seu cavalo e dois escudeiros, e de 20.000 infantes, ao custo de 4 marcos de prata por cavalo e 2 por homem, além dos alimentos para nove meses. A expedição deixou a República nos finais de 1202 e as embarcações, construídas especialmente para a ocasião, converteram-se numa parte estável da frota veneziana. Os navios à vela da época só podiam se mover quando recebiam o vento de popa. Daí que as unidades de guerra venezianas (e as usadas para o transporte do exército) tivessem tradicionalmente veias e remos, para dispor da capacidade de manobra necessária que, de outra forma, seria impossível. Veneza deixou de ser uma potência naval independente antes que a evolução da vela ultrapassasse a galera, mas esse tipo de navio ficou associado à República, embora, para muitas das suas trocas comerciais, os venezianos utilizassem outros navios como a coca e a carraca. COCAS, CARRACAS E CARAVELAS Provavelmente, a forma da coca, originaria do norte da Europa, foi introduzida no Mediterrâneo Junto com as mercadorias transportadas por essa embarcação. Caracterizava-se por uma grande boca em relação ao comprimento, a proa e a popa eram altas e só tinha um mastro com vela redonda. No entanto, os marinheiros venezianos armaram-na com vela latina (que já estava em uso nas embarcações árabes do século IX), adaptando-a ao novo tipo de casco e transformando-a, assim, em carraca.
Quando as dimensões das carracas foram aumentadas. estas receberam imediatamente 3, 4 e mesmo 5 mastros, todos armados com velas redondas, exceto o último e, às vezes, o penúltimo. Depois montaram-se velas de gávea na parte superior, o que proporcionou uma redução da superfície de cada vela e, especialmente, uma maior facilidade de manobra. O passo seguinte afetou a construção do casco: o forro liso, com as diversas tábuas dispostas a topo, substituiu os cascos trincados, característicos dos calafates nórdicos, de mais fácil construção, mas menos eficazes. A carraca desenvolvida pelos estaleiros venezianos e genoveses dos séculos XIII e XIV serviu de base à forma universalmente aceita de veleiro e perdurou até à chegada da propulsão a vapor (século XIX), com a única melhoria significativa, inventada por sir John Hawkins em 1570, da eliminação do alto castelo de proa. De qualquer modo, durante as ultimas década do século XV. a carraca já havia chegado a ser um barco muito grande para as exigências da maior parte dos mercadores do Mediterrâneo e, por isso, começou-se a construir uma versão reduzida, conhecida pelo nome de caravela. A caravela de três mastros tinha um comprimento médio de 23 m, mas incorporava muitas das características da carraca. Originalmente, a caravela só tinha velas latinas {carabela latina), mas os inconvenientes desse velame revelavam-se sempre que saíam das águas relativamente calmas do Mediterrâneo; daí que se introduzisse a carabela redonda que, como a carraca, tinha velas quadradas nos mastros traquete e grande e velas latinas ou de cutelo no de mezena. Da frota utilizada por Cristóvão Colombo em 1492, a Santa Maria era uma nau, enquanto a Pinta e a Nina eram caravelas. A Nina, armada como caravela latina ao zarpar da Espanha foi rapidamente rearmada como caravela redonda logo que chegaram às ilhas Canárias, na viagem de ida. Esse tipo de embarcações também foi usado para efetuar inúmeras viagens de exploração nos séculos XV e XVI. NAVIOS DE GUERRA VENEZIANOS
Em outros tempos, o Arsenal foi o maior estaleiro naval do
mundo e a primeira empresa industrial do Estado dos inícios da Europa
moderna. Os trabalhos de construção dos estaleiros começaram em 1104 e
duraram 50 anos, pois foi preciso secar o local antes de se proceder à
edificação, Uma vez concluído, o Arsenal recebeu os equipamentos necessários
para proporcionar à frota veneziana os navios, os remos e as armas de que
esta precisava.
Tal como havia acontecido com muitos dos pequenos estaleiros que construíam carracas e caravelas para o tráfego marítimo, Veneza vangloriou-se, graças ao seu Arsenal, de ler a maior capacidade de construção de navios de guerra ou galeras. Na verdade, o Arsenal também produzia galeras mercantes, que a República de Veneza alugava aos comerciantes, por meio de leilões, por somas que variavam conforme a antiguidade do barco e os riscos de perda. Devido ao grande número de exemplares produzidos alcançou-se um alto grau de padronização nos sistemas de construção, obtendo-se assim custos mais baixos e maior eficácia. As galeras adequadas ao trafego marítimo em diferentes áreas geográficas diferenciavam-se entre si por alguns detalhes; por exemplo, as utilizadas no comércio com Flandres, que tinham de passar pelo Atlântico e navegar até as difíceis águas do canal da Mancha, eram muito diferentes das que se destinavam ao Levante. Geralmente, tratavam-se de barcos de quase 52 m de comprimento e, as vezes, com mais de 6 m de boca, com uma tripulação de 166 homens, incluindo marinheiros, pilotos e remadores.
O seu deslocamento
situava-se entre 132 e 147 t e estava armada inicialmente com um mastro
(depois dois) de mais de 20 m com uma verga mais comprida e,
conseqüentemente, com uma
grande vela latina. As gáveas de combate instalavam-se nos mastros, onde os
arqueiros se colocavam antes de começar a luta, e existia também um castelo
central.
Os navios equipados assim chamavam-se barbotas. A tripulação era formada exclusivamente por combatentes, que nos confrontos trocavam os remos pelas armas. Os remadores de dentro dispunham de espadas ou lanças: os outros eram arqueiros ou fundeiros. O OCASO DAS GALERAS E GALÉS Embora agüentassem pouco o mar, as galeras foram usadas como navios de guerra no Mediterrâneo, e o último combate em que participaram ocorreu em 1717. No Báltico, sobreviveram quase mais um século, até a guerra entre a Suécia e a Rússia, em 1509. Os venezianos continuaram a usar galeras por ocasião de cerimônias especiais até o final da República, em 1797. A galé e uma evolução da galera: trata-se de um tipo intermediário entre a caravela latina e a galera, equipada com um velame com velas latinas e remos. Embora não tenham encontrado grande aceitação fora do Mediterrâneo, as galés desenvolveram um importante tráfego mercante de verão até o norte da Europa. Chegaram a ter dimensões significativas, atingindo as 711 t precisavam de uma grande tripulação para manobrá-las. A escassa rentabilidade do seu exercício e a sua difícil capacidade de manobra levaram-nas a desaparecer do mercado. |