O ENTARDECER DA MARINHA A VELA


A Revolução Industrial Britânica trouxe o ferro. Com o domínio da fundição, o ferro logo tomou o lugar do bronze no canhão, sendo mais barato e também mais forte. Novas técnicas de moldagem e perfuração resultaram em almas de canhões de melhor fabricação, com buracos ou janelas menores em volta da bala, o que lha dava maior alcance e precisão com uma menor carga.

Batalha de Trafalgar

O Redoutable francês ocupava ocupava o ponto na linha que Nelson resolveu romper como Victory.
Chamado ao combate com o Victory e o Temeraire, o Redoutable finalmente atacou mas teve de ceder rendendo-se no dia seguinte.

A primeira fundição foi a de Carron, que desenvolveu um canhão de cano curto para uso nos navios da própria companhia. Tinha seções finas, sendo, portanto, leve, e era montado num carro deslizante, o que lhe dava elevação e absorvia o choque de recuo. Era leve o bastante para ser manejado por uma guarnição de dois homens e atirava uma bala muito pesada à curta distância. Serviu tanto às idéias da marinha de guerra, que se tornou imediatamente popular sob o nome de caronada. Podia lançar um projétil sólido de 68 libras, mas era particularmente mortífero quando carregado com metralha, comumente de dupla carga. Precisava ser complementado por armas de alcance mais longo, mas era muito eficaz a sotavento do inimigo, quando sua bateria não operava a plena carga e seu convés superior, lotado, aparecia como um ótimo alvo. A carnificina resultante é descrita como uma "maravilha do mau gosto" (citando o relatório de um antigo marinheiro do Revenge, de Grenville), ainda mais que a posição a sotavento do atacante eliminava a possibilidade de fuga da vítima usando o vento favorável.

Batalha do Nilo em 1798.

A esquadra francesa estava ancorada em linha na baía de Abukir com popas voltadas para as águas
rasas esperando um ataque do lado do mar.
A força de Nelson desdobrou-se e a esquadra de de Bruey foi destruída por ambos os lados.

Não eram só os franceses que causavam dores de cabeça à Inglaterra no último quarto do século XVIII. As colônias americanas tinham optado pela independência e, atendendo às suas necessidades para a guerra inevitável, tinham algumas fragatas, uma grande frota mercante e muita determinação. Seguiram táticas francesas antigas, com pilhagens à frota mercante britânica, sendo ajudados pela aparente falha do Almirantado em entender a gravidade da situação. Muito poucos navios foram destinados à área, que teriam provavelmente pesado na balança, não fora a intervenção ativa dos franceses, ainda ressentidos pela perda do Canadá. A ação indecisa de Graves com de Grasse, em Chesapeake, reforçou a falta de compreensão da situação,mas um fato ainda mais importante ocorreu nas mesmas águas em 1776, o primeiro ataque submarino do mundo. 

O comércio inglês de açúcar na Índias Ocidentais sofria em cada guerra por causa dos corsários franceses operando da França e de ilhas neutras. A Marinha Real, mesmo sob forte pressão, continha o problema através do comboio e do combate.

Aqui o navio francês Jeune Richard é tomado pelo Windsor Castle 98 britânico em 1807.

O amor americano pela inovação foi exemplificado pelo Turtie. Era um submersível em forma de barril, idéia original de um tal de Bushnell. A tripulação, constituída de um só homem, o impelia vertical e horizontalmente por meio de um par de parafusos de Arquimedes, controlando o equilíbrio e o lastro ao mesmo tempo. Uma vez sob o alvo, deveria o piloto aparafusar nele a carga explosiva. O sargento Ezra Lee mereceu a imortalidade, por ter-se colocado realmente sob o navio-capitânia.
A Grã-Bretanha era duramente pressionada nesta época, estando em guerra com a França, a Espanha e a Holanda. A paz de 1783 foi bem-vinda para todos e reconheceu-se a independência dos Estados Unidos da América. Entretanto, apenas dez anos mais tarde a guerra voltou, dessa vez através das ambições de Napoleão. Fizeram-se necessárias a entrada em serviço dos navios de reserva e novas construções em um cronograma apertado. Barham livrara a organização de apoio à esquadra da corrupção e da ineficiência, e novas unidades incorporaram-se à frota em uma proporção nunca dantes conhecida. Eram construídos e reparados tanto nos estaleiros reais quanto nos privados. Esses últimos estabelecimentos eram simples para os padrões de hoje, consistindo, em sua maioria, de uma carreira e madeiramento numa praia de grande amplitude de maré, normalmente próximo a uma região florestal. Um bom exemplo é o Buckler's Hard, no rio Beaulieu, em Hampshire. As instalações eram mínimas: serraria, dispositivos para secagem da madeira, carpintaria, oficina de ferreiro, cabrestantes, paus de carga e um grande número de carroças puxadas a cavalo carregando madeira. Quando a reserva natural de madeira se esgotava, a carreira era retirada, os galpões demolidos e o local abandonado para voltar ao seu estado original.
Na abertura dessa última guerra, a esquadra britânica tinha o poder de 141navios de linha, sendo que destes, apenas 12 estavam comissionados. No início de 1794 esse número já era de 95, e a brilhante atuação de Barham não deveria ter sido esquecida tão rapidamente.

Em 1806, os franceses reforçam a guerra de corso ao comércio britânico no Oceano Índico pelo aumento de navios regulares. Dois desses eram as fragatas de 40 canhões Pie Montaise e a Cannoniere, a última é vista em combate com o britânico Tremendous 74. O navio inglês construído em 1784 durou até 1897.

A Marinha Real partiu imediatamente para a ofensiva, tendo como objetivo principal negar o uso do mar ao inimigo. Cada porto francês abrigava seu contingente de navios, vigiados incessantemente pêlos esquadrões britânicos ao largo, revezando-se em escala. Os franceses, cuja eficiência não fora melhorada pêlos expurgos revolucionários, decaíam tanto em moral quanto em material por causa da inatividade. Seus carcereiros cumpriam a tarefa que lhes coubera a duras penas, guardando posição sem descanso, em bom ou mau tempo, perto de costas perigosas, como a da Biscaia, que não permitia erros. Sob a cobertura de nevoeiro ou de mau tempo, os esquadrões franceses por vezes escapavam, mas a maior ameaça ainda vinha dos corsários, operando não só no Canal Inglês mas em águas tão longínquas quanto as do Oceano Indico.

Seção de um modelo de um navio de guerra de madeira demonstra sua imensa força.

O grande número de volumosos joelhos em madeira de lei é evidente, junto com o entabuamento duplo do casco.

A estrutura diagonal mais rija ainda não fora construída.

A França tinha sob seu domínio a maior parte do território europeu, o que provocou uma crise financeira na Grã-Bretanha, que perdeu seus principais mercados exportadores. Mesmo assim, a lenta pressão do bloqueio estava surtindo efeito, com a apreensão de valiosos comboios franceses que regressavam às bases, como aquele tomado por Howe, no Glorioso Primeiro de Junho de 1794. Os espanhóis foram esmagadoramente derrotados por Jervis, nas proximidades de São Vicente, em 1797 (habitualmente ajudado pelo Comodoro Nelson) e em 1796, foi a vez dos holandeses nas proximidades de Camperdown (Kampduin). A Marinha Real tinha alcançado o máximo da eficiência sob uma plêiade de ótimos comandantes, como Coilingwood, Duncan, Jervis e Howe; Hotham, Blackwood, Saumarcz e Troubridge. Sob o comando deles, a esquadra "rolava" na maré de seu próprio sucesso. Tanto em luta pesada, combate navio contra navio, como contra os Revolutionnaire, ou os Droits de l`Homme, ou devolvendo o cumprimento do ataque a Medway de Ruyter com a tomada de 25 navios ao largo de Don Helder, ela era incontível. Mas, acima dos melhores talentos de seus líderes, um se destacou como o gênio maior: Nelson.

Nelson. Um estrategista por natureza; amado por seus homens, embora fosse implacável a ponto de demandar a total aniquilação de inimigo.

A aventura egípcia de Napoleão feneceu depois que seu exército assistiu Nelson destruir-lhe a esquadra de apoio no Nilo, por táticas quase inacreditáveis. Três anos depois, em Copenhague, em 1801, ele destruiu a frota dinamarquesa que não permitia o acesso inglês ao Báltico para fins comerciais. Amado pêlos seus homens, tornava-se absolutamente impiedoso quando em açao. Seu objetivo era simplesmente a aniquilação do inimigo. O ataque era alardeado na Grã-Bretanha como nunca o tora, a traque/.a explorada e se doutrinas aceitas não se enquadravam neste espírito, passavam então a ser ignoradas. Em 1805, Calder reuniu uma frota combinada franco-espanhola, preparando-a para interceptar Nelson ao largo do cabo Trafalgar. A frota britânica, em menor número, rompeu a linha inimiga em três. Com nenhuma perda, apreendeu 17 dos 33 inimigos; mas na sua maior vitória sofreu a maior perda: seu Almirante não sobreviveu à ação.

Howe. Vitorioso no Glorioso Primeiro de Junho, 1794. Instrumento na solução dos motins da esquadea em 1797, obtendo compensação para as mais legítimas queixas dos marinheiros.

A esquadra inglesa ainda teve outros dez anos de guerra antes de Napoleão ser derrotado, mas nunca mais foi seriamente ameaçada. No entanto, no outro lado do Atlântico, acontecimentos demonstravam que o sucesso é devido ao moral e ao treinamento mais que à superioridade de navios de guerra.

John Jervis, conde de St. Vincent. Ganhou este título pela grande vitória de 1797.

Como comandante da Esquadra do Canal, ele executou o bloqueio cerrado aos portos franceses.

Os Estados Unidos entraram em guerra com a Grã-Bretanha, em 1812. A provocação partiu da Inglaterra: procurava de todos os modos reduzir a cota americana de comércio marítimo. O que particularmente irritava os americanos era a contínua parada de seus navios para recrutamento de qualquer súdito britânico da tripulação para o serviço de Sua Majestade. A inexperiente Marinha Americana não podia vangloriar-se de ter navios de linha, mas desenvolvera a fragata grande, ao ponto de com ela poder derrotar qualquer navio bastante rápido para alcançá-la e fugir de qualquer navio que pudesse derrotá-la. Na verdade um encouraçado antes de seu tempo, este tipo de navio não se ressentia dos costados muito finos, sendo a sua construção equivalente a um 74 britânico. Havia apenas meia dúzia deles, mas eram comandados por marinheiros de primeira categoria, que tinham estudado as táticas inglesas. O Almirantado, sob tensão máxima na Europa, só podia reservar uns poucos navios ao espetáculo aparentemente secundário, mas foi compelido à ação quando as fragatas britânicas, uma após outra iam sendo batidas por esses poderosos gigantes. Novas tradições foram criadas para a Marinha Americana, ferida apenas de leve por Broke, cujo Shannon conseguiu derrotar o Chesapeake.

Em 1803 o guarda-costas mostrado aqui não era da "marinha regular", mas exemplificava o espírito das muitas pequenas embarcações que auxiliavam os cruzadores navais maiores na proteção do comércio inglês contra os muitos corsários franceses por mais de um século de guerra.

A resposta da Marinha Inglesa baseou-se no conceito consagrado do bloqueio e os americanos freqüentemente se encontraram tão tolhidos quanto os franceses tinham estado. Havia grandes fragatas britânicas, o Leander de 60 canhões, por exemplo, mas eram muito poucas; uma solução de emergência então, era transformar três conveses em dois. Navios desse tipo não foram realmente colocados em combate contra os americanos, mas se tivessem sido, certamente não se teriam mostrado à altura. Eles marcaram o início de uma longa linha de fragatas grandes, complemento dos navios menores de 25 a 35 canhões.

Mas toda essa vasta máquina de guerra estava para se tornar obsoleta com o aparecimento de uma nova força com a qual homens inventivos estavam mexendo.