A LIGA HANSEÁTICA
 


No auge do seu desenvolvimento, nos séculos XIV e XV, o comércio báltico da Liga Hanseática (ou Hansa), consórcio livre de cidades marítimas alemãs que estabelecia acordos comerciais com o estrangeiro, quase alcançou o poder e o prestígio dos grandes centros comerciais mediterrâneos de Veneza, e Gênova. Em contrapartida, enquanto os impérios comerciais dessas duas repúblicas marítimas procuravam expandir-se, a Liga Hanseática foi formada por empresas comerciais com bases sólidas, que se uniram para se protegerem e manterem um predomínio de mercado já existente.

O termo hanseático provém da antiga palavra alemã Hansa, que significa corporação ou sociedade e por extensão acordo comercial. Em 1226, os comerciantes de Brest,Colônia já tinham fundado uma em Londres e foram imitados em 1226 e 1227 pêlos de Hamburgo e Lübeck. Em l282, as três hansas fundiram-se, dando início à Casa das Corporações, mas o nascimento oficial da Liga Hanseátíca foi muito anterior, em 1256, quando a cidade e os grandes centros de Dantzig, Hamburgo, Lübeck, Lüneburg, Rostoçk, Stralsund e Wismar decidiram unir-se com o objetivo de abastecer melhor seu crescente comércio com os países bálticos vizinhos, do Leste e do Norte. Ainda que o seu objetivo inicial fosse estimular seu comércio marítimo pelo Báltico, quase totalmente rodeado de terra, desenvolveram depois um interesse comum nos prósperos mercados da Holanda e da Inglaterra (que já mantinham relações com o Mediterrâneo) e, conseqüentemente, pretenderam expandir-se naquela direção, à qual deram logo preferência.

 Aos poucos, a Liga Hanseática englobou comerciantes de mais de 30 cidades alemãs, constituindo suas hansas em oito portos ingleses [Lynn, Boston, Hull, York, Norwich, Ipswich, yarmouth e Bristol),

assim como em Bergen, Noruega ; em Anvers, que na época era uma cidade holandesa, conseguindo controlar a maior parte do tráfego comercial em ambas as costas do mar do Norte.As rotas comerciais passavam pelo Báltico, pouco profundo; desde o Ocidente, pelo mar do Norte, até a Inglaterra; desde o Norte, ao largo da costa atlântica da Noruega, levando madeira, peixe e minerais; ou ao sul, ao golfo da Biscaia e costeando a Espanha e Portugal, para chegar ao Mediterrâneo e carregar sal, linho, seda e especiarias. Em todos os casos havia um denominador comum: as mercadorias viajavam por mar. Por esse motivo, ainda que não houvesse nenhuma intenção de padronizar os navios das diferentes cidades, os filiados da Liga Hanseática estimularam os construtores a projetarem novos tipos e navios mercantes, que respondessem às exigências o tráfego em expansão e que estivessem na vanguarda do ponto de vista tecnológico.

 A COCA  HANSEÁTICA

A partir do momento em que as rotas comerciais levam os navios mercantes cada vez mais longe, era inevitável que se procurasse construir uma embarcação adequada para navegar com segurança diante de qualquer situação atmosférica, que fosse forte e suficientemente grande para satisfazer as exigências de uma maior capacidade de carga.

O novo tipo de navio mercante ficou conhecido pelo nome de "coca hanseática". Em vez de ser governada com um ou dois remos, como as embarcações anteriores, a coca tinha um leme a estibordo da popa. Para dizer a verdade, é impossível estabelecer a data precisa dessa modificação técnica, visto que o testemunho mais confiável provém das marcas deixadas com o passar dos anos nos brasões das grandes cidades: o de Dover, possivelmente de 1284, mostra um navio que ainda utiliza esparrela, enquanto uma escultura (que parece ter menos de cem anos) numa gárgula da catedral de Winchester, uma cidade da Inglaterra meridional, situada a cerca de 30 km do mar, mostra claramente o leme e a cana. De qualquer forma, o certo é que em meados do século XIV o leme era de uso comum, uma vez que aparece tanto nos brasões das cidades da Liga Hanseática como em moedas e pinturas murais.Além disso, por meio das moedas e brasões conhecem-se outros detalhes da coca hanseática; em muito casos caracterizava-se pela proa reta, em vez da típica curvatura das anteriores embarcações nórdicas, e por uma linha também reta para o cadaste, ao qual estava fixado o leme.O cadaste, anteriormente prolongado por uma curta verga em que se podia fixar um estai, e mais tarde por um pequeno castelo que servia como de combate e de observação tinha cerca de 30º de inclinação em relação à vertical, um valor notável para o que era comum naquela época.

A roda e o cadaste estavam solidamente fixados a uma quilha pronunciada e que sobressaia muito (mais comprida que a das embarcações com proa e popa curvadas), o que permitia que o navio se "agarrasse" muito bem na água mesmo com o mar agitado. A quilha, comprida e direita, tinha sido estudada com toda a probabilidade para se adaptar as condições meteorológicas das costas da Europa setentrional, geralmente muito ruins. Como uma vela de pendão tornaria a embarcação muito difícil de manobrar e de lenta resposta ao leme, devia ser usada uma só vela redonda, que se orientava com vergas, mesmo com vento de alheta.   

E impossível determinar as dimensões exalas da coca hanseática com base nos brasões das cidades mas, graças aos documentos das cargas e ao descobrimento dos restos de uma coca de 1380 (afundados no rio Wesser, em Bremen. em 1962), foi possível determinar que tinha um comprimento de fora a fora de uns 30 m, uma boca de cerca de 8 m e um calado com aproximadamente 3 m; essas dimensões fazem pensar que seu deslocamento rondava as 280 toneladas.
 A única vela devia ter uma superfície de cerca de 150 m2 e, provavelmente, era feita com tela pesada amarelada (essa cor resultava de uma solução preparada com cortiça, utilizada para impedir que o velame se deteriorasse).Quanto à estrutura, não há dúvida de que os construtores nórdicos utilizavam o sistema de trincar (o bordo inferior de cada tábua ficava sobre o bordo superior da que estava em baixo) para o forro do casco, enquanto no local onde os costados se uniam à quilha optaram pelo método de construção de juntas planas (com os bordos das tábuas uns contra os

outros e tapando a união com estopa embebida em alcatrão, que impedia a entrada de água). As tábuas eram de carvalho e, especialmente para as superiores, muito grossas (50 cm e às vezes mais).

 DESENVOLVIMENTO E DECADÊNCIA

A Liga Hanseática foi constantemente reforçada durante os séculos XIV e XV, e tudo leva a crer que isso estimulou os construtores locais a aperfeiçoarem as embarcações, e também porque na Espanha, em Portugal e na área mediterrânica se construíam muitos tipos de barcos novos, cada vez maiores. Pouco a pouco, a coca de um só mastro foi substituída pela carraca de dois mastros e, a seguir, pela de três, que ultrapassava as 500 toneladas. Os genoveses usaram navios esse tipo para seu comércio com a Inglaterra, e os venezianos também empregaram tipos cada vez mais evoluídos. No final do século XV, os navios mercantes em construção tinham um tamanho duas vezes superior ao dos anteriores (o Grace de Dieu do rei inglês Henrique V, construído em 1418, deslocava 1.400 t e media 50 m de comprimento de fora a fora).

Um grande navio da Liga, o Jesus of Lübeck, foi vendido aos ingleses em 1544; tratava-se de uma carraca de 700 t e quatro mastros, aparelhada com velas latinas que John Hawkins utilizou para o tráfico de escravos das Índias Ocidentais, de 1564 a 1568, ano em que foi capturado pêlos espanhóis. Os chamados "comerciantes aventureiros" ingleses, como Hawkins e Francis Drake, também foram responsáveis pela decadência da Liga Hanseática durante o século XVI. De fato, o monopólio comercial no norte da Europa vinha despertando havia algum tempo a inveja dos outros países, e os comerciantes ingleses, cuja influência política estava ganhando certo peso, pressionaram o governo para tomar medidas drásticas.

Assim, a Inglaterra anulou os privilégios de que a Liga Hanseática gozava, e o mesmo foi feito na Holanda e em Bergen, na Noruega. Lentamente, a Liga ficou reduzida a poucos membros fundadores, entre os quais reinava o desacordo, e no fim do século XVII o seu poderio comercial não passava de uma recordação.
Os empórios hanseáticos que sobreviveram mais tempo foram os de Bergen (1775), Londres (1852) e Habsburgo(1863).