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NAU SÃO GABRIEL
Até hoje paira uma grande dúvida sobre a célebre
nau São Gabriel. Esta nau, que foi a embarcação-capitânia (de comando) da
pequena frota de Vasco da Gama, foi utilizada por Pedro Álvares Cabral para
comandar a frota que veio ao Brasil em 1500? A resposta é: tudo indica que
sim.
As autoras Jacqueline Penjon e Anne-Marie Quint, que escreveram um capítulo
sobre a descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral, na obra intitulada
Lisboa Ultramarina, mencionam, na página 144 do referido livro, o seguinte
trecho: "O comandante da frota era um gentil-homem, Pedro Álvares Cabral.
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Navegava ele na nau São Gabriel, remanescente da
viagem de Vasco da Gama à Índia".
A viagem de Vasco da Gama à Índia foi importantíssima, pois este
bravo navegador português descobriu o caminho marítimo para a Índia,
contornando o Sul do continente africano, através do Cabo da Boa Esperança.
A disputa pelas descobertas marítimas se acirrou entre os
reinos de Portugal e Espanha, após a descoberta da América por Cristóvão
Colombo, em 1492.
A disputa entre os dois reinos perdurou e exacerbou-se até que, graças ao
gênio diplomático de Dom João II, foi assinado o Tratado de Tordesilhas, em
junho de 1494, o qual dividia o mundo de pólo a pólo, numa linha que passava
a 370 léguas a ocidente de Cabo Verde.
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Chegada de
Vasco da Gama às Índias. |
Para muitos historiadores, tanto portugueses como brasileiros, reside aí a
maior prova de que o Brasil já estava descoberto antes dessa data. Se,
durante alguns anos se manteve sigilo da descoberta, teria sido para evitar
complicações com os soberanos vizinhos.
Em 1958, num trabalho intitulado Três Roteiros Desconhecidos de Ahmad Ibn Madjid, o Piloto Árabe de Vasco da Gama, o historiador russo
Chumovsky levantou a tese de que, em 1495, ano da sua morte, o rei Dom João
II mandara uma expedição à Índia, a qual teria naufragado ao largo de Sofala.
Em 8 de julho de 1497, partiu de Lisboa a pequena frota de Vasco da Gama
rumo à Índia. Era constituída de três naus e uma caravela: quatro
embarcações ao todo.
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A conquista do caminho para a Índia começa com o aperfeiçoamento das
embarcações. Os portugueses inventaram a caravela de aparelho duplo: velas
quadradas para andamento do vento traseiro, velas latinas para o vento de
frente.
Tipos novos - As embarcações de Vasco da Gama já são deste novo tipo. A nau
São Gabriel desloca 120 tonéis; a São Rafael, um pouco menos, 100 tonéis; a
São Miguel, destinada a transportar provisões e alimentos, era a maior de
todas, pois deslocava nada menos que 200 tonéis.
Somava-se às três uma caravela de 80 tonéis, a Bérrio. Não se confunda,
entretanto, tonelagem de capacidade de alojar no porão certa quantidade de
tonéis, com tonelagem de deslocamento.
Essas informações sobre as embarcações de Vasco da Gama estão no livro
Navires et Marins, publicado em 1930 e cujos autores são G.de Roerie e J.Vivielle. |
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Mapa do Brasil em 1519 |
A velocidade diária da nau São Gabriel medeava entre quatro e cinco milhas
(7,4 e 9,2 quilômetros horários). Segundo os melhores autores da época,
Bartolomeu Dias em pessoa superintendeu a construção das naus São Gabriel e
São Rafael.
A escolha não podia ser melhor. Essas naus foram utilizadas pela primeira
vez em 1497, na viagem de Vasco da Gama.
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Nessas naus se concentravam todos os aperfeiçoamentos da tecnologia naval
dos últimos anos do século XV. O cavername era de carvalho; o costado, de
pinho, e o cavilhame, todo de ferro.
No dia 29 de agosto de 1499, a nau São Gabriel fundeou em Belém. Dois anos, um mês e 21 dias depois da partida rumo à Índia. A caravela Bérrio, comandada por Nicolau Coelho, chegara a Portugal um mês antes.Os
dois navios traziam, além de especiarias do Oriente, apenas 55
sobreviventes do grupo original de 170 embarcados. |
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As naus São Miguel e São Rafael foram
destruídas na viagem.
No dia 9 de março de 1500, parte rumo à Índia uma nova
armada, de 13 navios e 1.200 marinheiros e soldados. Quem a comandava era
Pedro Álvares Cabral, que, de passagem, descobriu o Brasil em 22 de abril de
1500.
A nau São Gabriel utilizada por Cabral devia ser a mesma utilizada por Vasco
da Gama, pois era nova (três anos) e os portugueses tiveram seis meses para
repará-la e equipá-la para mais uma nova viagem.
Além do mais, Vasco da Gama era amigo pessoal de Cabral e o recomendara ao
soberano português, Dom Manuel, para comandar a nova expedição naval, que
zarparia rumo à Índia.
A viagem de Pedro Álvares Cabral permitiu descobrir o Brasil,
mas foi desafortunada, pois os portugueses agravaram na Índia a inimizade
com o rajá de Calicut.
Dos 13 navios de Cabral, seis se perderam por várias razões (quatro em uma
tempestade). Quando Vasco da Gama propôs novamente Pedro Álvares Cabral para
comandar uma nova frota que zarparia para a Índia em 1502, Dom Manuel o
vetou, possivelmente em decorrência da malfadada expedição anterior.
É então que Vasco da Gama resolve solicitar o comando da frota. Esta é
constituída de três esquadras. Uma, de 10 naus, comandada por Vasco da Gama,
parte de Lisboa no dia 10 de fevereiro de 1502.
A nau-capitânia de Vasco da Gama é de novo a São Gabriel. Provavelmente era
sua a nau já utilizada por Cabral, pois o mesmo retornara da Índia, chegando
a Lisboa, em 23 de junho de 1501.
Portanto, os portugueses tiveram mais de sete meses
para apetrechá-la para uma nova viagem. Vasco da Gama retorna a Portugal de
sua segunda viagem bem-sucedida à Índia, chegando ao Porto de Lisboa em 1º
de setembro de 1503.
O prazo de tempo entre a chegada e a partida das três primeiras expedições
portuguesas rumo à Índia, a amizade entre Vasco da Gama e Cabral levam a
crer que a nau São Gabriel foi utilizada pelos dois navegadores nas três
viagens.
Para se chegar a uma definição sobre o assunto, resta um outro recurso: a
análise de documentos e livros que constatem as características técnicas da
nau São Gabriel usada nas três viagens e se tinha como figura de proa
(frente) uma imagem de Nossa Senhora, de madeira, pintada de dourado (que
adornava a primeira nau São Gabriel, utilizada por Vasco da Gama na viagem
pioneira à Índia.
Características:
Peso de 70 pessoas e bagagem: 70 toneladas
Mantimentos para 18 meses: 97 toneladas
Líquidos para seis meses: 30 toneladas
Bombardas grossas e alguns berços: 6 toneladas
Lenha para seis meses: 6 toneladas
Projéteis: 6 toneladas
Pólvora e armamentos de mão: 6 toneladas
Carga de comércio: 40 toneladas
Total: 198 toneladas.
Observação: Este devia ser o peso mínimo que a nau São Gabriel podia
transportar. O cálculo é de um estudo do vice-almirante Morais e Sousa, da
Marinha de Portugal.
Juntando outras características, a capacidade da nau subiria em mais 66
toneladas:
Peso da mastreação: 24 toneladas
Três andares de pano: 5 toneladas
Dois jogos de amarras e ferros: 13 toneladas
Massame: 6 toneladas
Sobressalentes: 18 toneladas
Total: 66 toneladas.
A soma das 198 toneladas com 66 resulta em 264.
Daí deduz o vice-almirante Morais e Sousa que a tonelagem de deslocamento
deveria ser de 750 toneladas, motivo pela qual as dimensões da São Gabriel
seriam as seguintes:
Comprimento entre perpendiculares: 31 metros
Boca (largura) máxima: 9,80 metros
Calado máximo: 4,40 metros.
Em julho de 1525, uma frota espanhola partiu do
porto de Sevilha com o objetivo de refazer a viagem de Fernando de Magalhães
até as Ilhas Molucas (Oceano Pacífico), contornando o extremo Sul da América
(posteriormente denominado estreito de Magalhães). Ao se aproximar da
entrada do estreito, em pleno inverno austral, a frota foi surpreendia pelo
clima rigoroso. A nau São Gabriel, comandada por D. Rodrigo de Acuña,
se separou das demais e seguiu rumo Norte pelo litoral brasileiro. Ao
atingir o litoral nordestino, parou junto à foz de um rio situado nas
proximidades do paralelo 10º S para reparar seu navio.
No dia 21 de outubro de 1526, a nau de D. Rodrigo estava sendo reparada
quando foi surpreendida por um ataque dos franceses. Sem poder se defender,
D. Rodrigo embarcou num batel com outros sete homens afim de resolver a
questão diplomaticamente. Neste meio tempo, os homens que permaneceram a
bordo da São Gabriel tomaram a embarcação e fugiram. D. Rodrigo e
seus homens foram aprisionados pelos corsários franceses durante trinta
dias. Ao partirem, abandonaram o capitão espanhol com o seu batel. Sem
víveres e com poucos remos. D. Rodrigo e seus homens remaram rumo norte, até
encontrarem a feitoria portuguesa de Pernambuco.
Lá permaneceram.
Manoel Carlos Prieto Batan é professor de
História com pós-graduação e pesquisador de assuntos marítimos.
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