|
|
PIRATAS
|
 |
O desenvolvimento do
comércio marítimo e o nascimento da pirataria são quase paralelos; de fato, a
prática de apoderar-se da carga dos barcos já estava muito difundida na Antigüidade, sobretudo na zona mediterrânica
onde os comerciantes, como os fenícios, preocupados em salvar seus empórios,
não hesitavam em empregar métodos semelhantes aos dos piratas. Também na
Grécia e em Roma, a atividade dos corsários registrou períodos especialmente
intensos e foram feitas diversas tentativas para combatê-la.
|
Na Idade Média, a
pirataria na Europa identificou-se com as atividades conquistadoras dos vikings
e dos árabes e levou à criação, sob a égide do Império Turco, de
verdadeiros Estados-piratas, denominados berberescos, que duraram até o século
XIX. Mas foi o descobrimento do Novo Mundo e o grande tráfego de mercadorias
preciosas entre a América e a Espanha, que determinou o aumento de uma
imponente frota pirata. A idade de ouro da pirataria pode ser fixada entre 1690
e 1720.
Durante muito
tempo, o Caribe, ou Antilhas, foram o paraíso dos corsários, mas em 1689 a
Inglaterra e a Espanha aliaram-se momentaneamente e, por um breve período, pôs-se
fim à impunidade dos piratas naquela região.
|
 |
Na sua maioria eram ingleses que
pilhavam os espanhóis. Então, mudaram seu campo de ação para o oceano Índico,
e estabeleceram bases nos portos da América do Norte, onde pessoas influentes
estavam dispostas a apoiar economicamente as expedições da captura a troco de
uma porcentagem dos lucros. Também lhes proporcionavam certa cobertura legal, passando-lhes autorizações sem nenhum valor.
|
Dentre
muitos, um dos mais famosos piratas desse período foi Henry Morgan!
Portador
de um aguçado senso de oportunidade, talvez tenha sido um dos
poucos piratas de sua época que conseguiu terminar sua carreira com o
apoio dos governantes.
|
 |
Nos finais do século, e usando
Madagascar e as ilhas próximas como bases operativas para seus saques, os corsários
europeus e norte-americanos da costa oriental dominavam sem entraves toda a
zona.
As tentações para
se dedicarem à pirataria eram grandes, visto que numa só viagem um marinheiro
podia ficar muito rico.
|
Em abril de 1694, um certo Thomas Tew voltou a Newport (Rhode
Island), de onde era originário, depois de uma viagem de 22.000 milhas pelas
costas da Arábia e da Índia, na qual obteve um saque de 100.000 libras de ouro
e prata e uma quantidade ainda maior de marfim, jóias e especiarias, que
constituíam carga de um só navio indiano. Na incursão seguinte, a boa sorte o
abandonou, pois morreu quando tentava abordar um navio mercante. |
Bandeira insígnia de Tew |
Daniel Defoe
escreveu que “durante o combate, uma bala desfez o ventre de Tew que, por um
momento, susteve as vísceras na mão”. Os protestos dos
comerciantes ingleses, que viam seus negócios com as Índias orientais
seriamente comprometido por causa dos saques dos piratas, obrigaram o
Almirantado a tomar medidas. Um dos oficiais incumbidos de derrotar os piratas
foi o comandante William Kidd, um comandante da marinha mercante.
|
Em 1696,
zarpou até o oceano Índico com uma “patente de corso” outorgada por Lord
Bellomont, governador de Boston, que o autorizava a atacar legalmente tanto os
corsários como os navios mercantes inimigos (naquela época a França e a
Inglaterra estavam em guerra). Por sua vez, Kidd considerou a autorização real
como uma garantia de impunidade ilimitada e também abordou o Quedagh Merchant,
que pertencia ao Grão Mongol da Índia.
Este e outros
ataques foram considerados atos de pirataria e, no seu regresso à América do
Norte, Kidd foi detido e enviado à Inglaterra para ser julgado insistia que não
tinha causado nenhum dano, e que foram ocultadas algumas provas a seu favor maio
de 1701, Kidd foi enforcado em Execution nas
margens do Tamisa.
|
Possível carta de corso de
Kidd
|
O cadáver foi acorrentado
a um mastro, que ficava submerso
durante a maré a ali permaneceu três dias. Depois foi retirado, untado com
breu e guardado numa jaula metálica, para que ossos permanecessem juntos depois
da putrefação da carne. O corpo foi pendurado numa forca erguida essa finalidade
em Tilbury Point, para que servisse de aviso a todos os que tinham pretensão de
fazer ao mar como piratas.
Nos anos
seguintes fizeram incursões desde Mota até o cabo da Boa Esperança, para se
dirigirem em seguida para o golfo de Bengala. Ficaram ricos a ponto de se oferecerem para
pagar a dívida pública da Inglaterra em troca de uma anistia. Every nunca foi
capturado. Segundo Defoe, acabou se refugiando em Bidef Devon, onde os
comerciantes locais lhe tiraram a maior parte da fortuna, deixando-lhe uma pequena
pensão vitalícia e ameaçaram denunciá-lo se ele se queixasse.
|
Um dos ladrões que
Kidd havia sido encarregado de ir buscar era Henry Every, ou Avery, também conhecido
como Long Ben, que, depois de ter prestado serviço na Marinha britânica e
participado no bombardeio aos corsários argelinos em 1671, tinha se convertido
num dos piratas do mar das Antilhas. Em 1694, E partiu como imediato a bordo do
Carlos II, que zarpava do porto inglês de Bristol rumo ao Caribe, munido uma
autorização do rei da Espanha para capturar contrabandistas franceses. Every e
os homem tripulação apoderaram-se do barco e, depois de fazer escala no porto de
La Corufia, batizaram-no com o nome de Fancy rumando para Madagascar.
|
Bandeira insígnia de Henry
Every |
Em 1716 os piratas
concentraram novamente atenção no Caribe, e estabeleceram suas bases na ilha
New Providence, nas Bahamas. Segundo o governo da Virgínia, havia mais de 2.000
morando na miserável cidade surgida ao longo da praia, cujos habitantes não
sujeitavam a nenhuma lei. Partindo de New Providej atacavam os muitos navios
mercantes que transitas pelo mar das Antilhas rumo às costas setentrionais América
do Sul, às Índias ocidentais e aos portos Europa e da América do Norte.
Entre
os piratas Caribe estavam temíveis personagens como o Barba Negra (cujo
verdadeiro nome era Edward Teach ou, segundo Defoe, Edward Drummond).
|
Teach, nascido em
Bristol, tinha um aspecto imponente e, diz-se, entrançava nos cabelos e na
barba algumas mechas e incendiava-as quando ia combate fim de parecer envolto
numa nuvem de fuma Tornou-se popular em 1716, quando assumiu o mando de um barco
francês capturado em águas cabo de São Vicente. Deu-lhe o novo nome de Queen
Anne’s Revenge (Vingança da Rainha Ana), embarcou 40 canhões, zarpou
até Nassau e pilhou a costa atlântico da América do Norte. Como se pode
ler num rela parecia “um diabo saído do inferno".
|
Bandeira
insígnia de Barba Negra
|
Naquela
época, a Carolina do Norte era uma das colônias norte-americanas mais pobres.
Em janeiro de 1718, seu governador, Charles Eden, concedeu o perdão a
Barba-Negra pelas culpas passadas e futuras em troca ‘de uma parte do saque.
No mês de maio daquele ano, o pirata, seguro da. sua impunidade, empreendeu a
expedição mais ambiciosa, bloqueando a cidade de Charleston, capital da colônia
vizinha da Carolina do Sul, capturou nove barcos em uma semana e preparou-se
para vender a baixo preço as mercadorias roubadas. Realmente, o comportamento
de Barba-Negra foi muito audaz, e se Eden estava disposto a tolerá-lo,
Alexander Spotswood, governador da Virgínia, mostrou-se intransigente.
Em
novembro, sabendo que Teach tinha zarpado para o norte, rumo à pequena baía de
Ocracoke (a sul do cabo Hatteras, na Carolina do Norte), enviou duas corvetas de
pouco calado contra o pirata, que só contava com 18 homens contra os 60 da
Marinha. Apesar disso, a luta foi dura. Barba-Negra, ferido várias vezes,
acabou morrendo e sua cabeça, decepada por ordem do primeiro-tenente Robert
Maynard, foi pendurada no gurupês como troféu.
A idade de ouro da pirataria chegava ao fim. Expulsos do Caribe por
Spotswood e outro administrador inglês,
Woodes Rogers, os piratas voltaram para as águas africanas, mas dessa vez para
a zona costeira ocidental, onde o florescente tráfico de escravos parecia
prometer saques importantes.
Um galês chamado Howell Davis destacava-se entre
os piratas e em 5 de Junho de 1719, em Amaboe, um porto escravista da Guiné,
encontrou outro desalmado, Bartholomew Roberts, cujas incursões eram ainda mais
sangrentas que as suas Conhecido pela alcunha de Bart, o Negro, representou
melhor que nenhum outro a imagem estereotipada do pirata: colete suntuoso e calças
de damasco vermelho, pluma vermelha no tricórnio, corrente de ouro com
pingente de diamantes no pescoço, quatro pistolas e espada à cintura.
Davis e Roberts só
navegaram juntos durante seis semanas, porque um português matou Davis.
Roberts, nomeado comandante do Royal Rover, logo demonstrou ser capaz de superar
o mestre. Capturou os barcos no golfo de Benim antes de tomar o rumo para oeste,
até o Brasil. Ali, perto da costa, encontrou uma frota de 42 barcos portugueses
que estava formada em comboio pan se dirigir a Lisboa e conseguiu capturar
impunemente os maiores, que transportavam o carregamento mais valioso Dirigiu-se
para o Caribe mas, diante da presença da poderosa frota inglesa que patrulhava
a região, continuo rumo ao norte até Terra Nova, uma escala comum nas
travessias do Atlântico setentrional. Num porto ao sul da cidade de Trepassey
descobriu o que procurava: uma frota de 22 navios mercantes que, apesar de ir
bem armada (40 canhões) e contar com 1.200 marinheiros não disparou uma única
vez contra o pirata. Os tripulantes fugiram para a terra e Roberts, depois de
ter saqueado os barcos, apoderou-se do melhor, de ter chamando-lhe Royal
Fortune, para substituir o Rover.
Também seus inimigos
se sentiam atraídos por Bart, o Negro. “Não podemos deixar de admirá-lo
pela sua coragem e audácia”, escrevia o governador da Nova Inglaterra.
Roberts, continuando com as pilhagens, voltou a rumar para o sul. Em setembro de
1720 tinha regressado ao Caribe e pensava cruzar novamente o Atlântico para ir
à África. Abasteceu-se em Deseada e zarpou para seu destino, mas enganou-se na
travessia e foi empurrado para o Norte das ilhas de Cabo Verde. Impedido de se
dirigir para o sul, contra o vento dominante, retrocedeu para alcançar,
dificilmente, o Suriname, na América do Sul, antes de esgotar toda a sua água.
Durante todo o inverno continuou jogando perigosamente com os barcos de vigilância
da Marinha britânica e na primavera seguinte quase conseguiu, sozinho, acabar
com o tráfego marítimo para o Caribe, a ponto de nada lhe restar para roubar.
No início de abril ainda voltou e cruzou o Atlântico rumo ao Senegal, de onde
devia se dirigir para Serra Leoa.
|
Durante o resto do a no capturou todas as presas disponíveis,
incluindo a fragata Onslow da Real Companhia africana, que conservou para si
como o terceiro Royal Fortune. Em fevereiro de 1722 foi atacado pelo Swallow, da
Marinha britânica, com 60 canhões, sob o comando de Chaloner Ogle.Bart, o
Negro, morreu e 169 dos seus homens acabaram sendo presos e submetidos a
julgamento: 79 foram absolvidos ao se reconhecer que tinham sido obrigados a se
tomarem piratas; |
Mapa da "Costa do Ouro |
54 acabaram condenados à morte e foram enforcados no
castelo de Cape Coast, sede do comando britânico da costa da Guiné.Outros 17 deveriam
cumprir uma longa condenação na prisão de Londres, mas todos (exceto quatro)
morreram durante a viagem. Os restantes 19 receberam condenações a sete anos
de trabalhos forçados nas minas de ouro situadas na costa, mas nenhum
sobreviveu. Ogle foi nomeado cavaleiro (o único oficial da Marinha britânica a
receber esse título pelas suas ações contra os piratas) e contam os relatos
que se tomou inesperadamente rico graças ao pó de ouro que encontrou no
camarote de Roberts. A idade de ouro da pirataria, que durou trinta anos, tinha
acabado definitivamente.
|