Embarcações
espanholas e portuguesas
A
tartana é também um tipo de embarcação que, mediterrânea nos seus
caracteres essenciais, inclui entretanto inovações nórdicas. Este barco,
comum à Espanha e a outros países entre os quais a Itália, com um só mastro
e equipada à latina, tem a proa projetada para o alto de acordo com a concepção
grega, mas tem também um floco triangular e o gurupês que denotam influxo
europeu setentrional.
A falusa espanhola, de dois mastros de velas latinas, apresentava uma semelhança pronunciada com o scebek corsário argelino: mastro principal inclinado para a proa, proa alongada, popa com acentuada projeção, gurupês longo, grande vela de proa. É provável que a velocidade, as qualidades técnicas, a graça de linhas do scebek tivessem impressionado os espanhóis. Posteriormente a falusa tornou-se uma embarcação não pontada, longa, com popa e proa iguais ou com popa quadrada; tem um só mastro, inclinado para a proa, e vela latina tradicional, que é um exemplo típico da evolução da vela mediterrânea.
Com efeito, era na origem uma vela “al terzo”, quadrada, que com ventos favoráveis navegava bem mas, nas repentinas rajadas de vento do Mediterrâneo, fazia afundar nas ondas a proa da falusa. Por isso a altura da relinga de barlavento foi bastante reduzida e a antena assumiu uma posição oblíqua. Como outros pitorescos veleiros do Mediterrâneo, a tartana e a falusa espanholas desapareceram com o advento do motor e este processo foi ainda acelerado pela posição do governo espanhol que se mostrou hostil à tradição de construir barcos de madeira.
A fragata do
Tejo (que nasceu neste rio, como sugere o nome) era tipicamente mediterrânea na
forma e no equipamento, mas com madeiramento de tábuas sobrepostas. Nesta
embarcação eram característicos os dois mastros da mesma altura (o de mezena
inclinado para a popa), a proa e a popa prolongadas e ornadas e os painéis
decorativos no casco e na proa.
A barca do Douro, que transportava o vinho rio abaixo, para o sazonamento no Porto, era rudimentar, mas correspondia a critérios inteiramente funcionais em seu uso. Notáveis, no casco, além do pequeno calado, eram a largura e o emprego do menor número possível de través de sustentação, na seção transversal, para facilitar o armazenamento dos. barris. A longa curva da proa e da popa lembrava o Egito e a aparência nilótica era acentuada pela grande vela quadrada do único mastro (situado um pouco à popa) e pelo estrado de madeira do alto do qual, por meio de um remo de governo ou da pertiga, se conduzia a barca pelas estreitas e sinuosas curvas do rio.
A despeito das aparências a muleta, estranhíssimo pesqueiro português, que empregava redes tanto à deriva quanto no arrasto, era perfeitamente adaptada ao seu trabalho. A grande vela latina, em um mastro inclinado para a proa, integrada por uma espécie de duplo spinnaksr rudimentar, ensejava a propulsão.
Como ainda subsistem alguns
exemplares, pode-se afirmar que a muleta está entre as embarcações mais
interessantes hoje existentes, pois assimila características pertencentes a três
povos muito distanciados entre si no tempo e no espaço. A proa eriçada de
pontas de ferro é idêntica à de uma “nave longa” normanda, couraçada,
que se chamava jarnbardí o olho pintado em vivas cores na proa é
tradicionalmente mediterrâneo enfim, o casco em forma de cuba e as derivas
laterais lembram o hektjalk oitocentistas dos Países Baixos.
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