CONSTRUINDO O GALEÃO SAN FRANCISCO  - 04



 

Olá!
A medida que o tempo passa e vamos montando modelos das mais diversas escalas, em determinadas ocasiões nos deparamos com as mais variadas dúvidas!
Um delas é! Será que a bitola da madeira que se utiliza naquele momento está correta?
É a mais apropriada?
Quando fazemos um modelo contemporâneo a coisa fica mais fácil porque podemos dirimir a nossa dúvida acessando a documentação farta a disposição!
Mas, no caso de embarcações antigas, a coisa fica complicada! É muito difícil ter acesso a documentação da construção original, isso se houver é claro! Temos que ter em mente que a padronização na construção naval e registros é uma coisa mais ou menos recente!

Com o passar do tempo, descobri que imagens de quadros de época podem ajudar e muito!
Vejam só! Os pés, mãos e cabeça dos seres humanos continuam com o mesmo tamanho médio há séculos. Podem ter ficado mais altos é verdade! Mas esses três elementos continuam com as mesmas características!

Bem! Os artistas que pintavam óleos nas várias épocas, tinham um apurado senso de proporcionalidade! Isso permitia que transcrevessem para a tela a imagem com um grau bem confiável de fidedignidade!

Observando quadros de época podemos fazer comparações que elucidarão muitas de nossas dúvidas!

 

Observem esse modelo onde mostra uma figura humana na forma de um boneco!
O mesmo está servindo de referência para mostrar a proporção da modelo em relação a um ser humano.

Pode-se notar que o pé da figura não é maior do que a largura do tabuado do deck. Perfeito!
Também não era para menos! O modelo foi feito pelo ilustre maquetista Gerárd Delacroix. Para mim! Um mestre!
 

 

Nessa tela, que retrata piratas a bordo de uma embarcação!
Pelos trajes pode-se presumir tratar-se de uma pintura dos séculos XVII a XVIII..
No detalhe, observem que o tabuado não tem sua largura maior do que o pé de um ser humano.

 

Observem esse óleo onde retrata o almirante Nelson caído na coberta do HMS Victory.
Note no detalhe que o fato se repete!
A largura do tabuado não é maior do o pé.

Um pouco mais de paciência!
Observe a cena seguinte!

 

Um outro artista retrata o mesmo momento e local. HMS Victory.
No detalhe pode-se ver que há um consenso entre os dois artistas!
O tabuado mantém a mesma proporção!

 

Você pode estar se perguntando onde eu quero chegar certo?
Pois bem! A foto ao lado mostra o tabuado do deck na extremidade do castelo de proa do modelo San Francisco!
Dá para ver que são ao todo 22 ripas coladas paralelamente OK?
O caso, é que essa peça na escala de 1/90 tem 91 mm de largura.

Se dividirmos 91 mm pelo número de ripas que foram necessárias para cobrir a área. Cada ripa terá por volta de 4 mm de largura. E aí
Está correto isso? Acho que não!

Se multiplicarmos sua largura 4 mm x a escala, no caso 90, teremos que cada tábua teria por volta de 360 mm de largura! Essa medida ultrapassa em muito o tamanho médio de um pé humano!


 

 

O mais indicado seria que o tabuado fosse formado por ripas com 2,5 mm de largura! Isso nessa escala! Ou seja 1/90.Veja!  Uma ripa com 2,5 mm x 90 = 22,5 cm. Possivelmente fosse essa a largura do tabuado do deck daquela embarcação. Pelo menos aproxima-se muito mais da proporção em relação ao ser humano!

Em virtude disso, resolvi refazer o tabuado do modelo San Francisco!
Terei um trabalho um bom trabalho! Mas prefiro cometer os meus próprios erros ao invés de copiar e repetir erros de terceiros.
O mesmo modo de pensar também se aplica ao enxadrezado!

Aí vem a pergunta!
Porque uma empresa de renome deixaria isso passar?
A resposta é simples! Custo de produção!  Padronizar é a palavra de ordem!
Durante boa parte de minha vida trabalhei em indústrias e sem muito bem do que estou falando!

Mas sabem como é! Quem não escuta cuidado, termina por escutar coitado! he he he he he .....

 

Observando o enxadrezado de meia-nau do modelo lá de fora, levando-se em consideração que o tabuado seja formado por ripas de 4 mm pelo menos. Talvez mesmo um pouco maiores podemos constatar uma coisa!
De olho podemos imaginar que os espaços do enxadrezado são em torno de 3 mm x 3 mm. Multiplicando isso por 90, que é a escala em que se encontra teremos um enxadrezado cujas as aberturas seriam de 27 cm x 27 cm.

Essas dimensões são mais para clarabóia do que um enxadrezado!
Está totalmente fora de proporção!


 

Vamos explorar um pouco mais o Sr. Delacroix!
Em seu lindo modelo o Fleuron, é bom observar a proporção das aberturas do enxadrezado em relação a largura do tabuado!

Não é a toa que esse senhor tem o prestígio que tem!


 

Pesquisando no livro de Brian Lavery onde o mesmo descreve passo a passo toda a construção do navio Susan Constant, galeão inglês do século XVII,   chego a conclusão que o enxadrezado do nosso modelo na escala de 1/90 tem de ter as aberturas do enxadrezado com 1 mm x 1 mm. O que resultaria em aberturas de 90 mm x 90 mm.  Devemos ter em mente que essas aberturas destinavam-se a permitir a circulação do ar!

 

Mas nem só em quadros de época podemos pesquisar!
Vejam a foto ao lado.
Trata-se de uma foto do enxadrezado na réplica do galeão Mayflower que se encontra ancorado na cidade de Plymouth EUA..
Note que as aberturas são estreitas!
Muito diferentes às apresentadas no modelo lá de fora!

 

Bem! O objetivo dessa matéria foi de alertá-los sobre as falhas que vez por outra aparecem nos modelos industrializados!  De nada adianta cortar a laser, jato d'água ........ se a pessoa não tiver a certeza do que está fazendo!
Por outro lado, mostro que nem sempre o caminho mais fácil de simplesmente copiar um modelo de outros é o caminho mais indicado! Para fazer um modelo a pessoa tem de ter sua própria opinião formada! Pesquisar, questionar ............ formar sua opinião,  ter luz própria!
Caso contrário, será apenas mais um colonizado culturalmente que vai pela cabeça dos outros, repetindo seus erros! Pensem nisso!